sexta-feira, 9 de março de 2007

Globo Repórter

Uma típica noite de sexta feira, Seu Joaquim, após longo e exaustivo dia de trabalho, termina sua refeição. Enquanto isso, Dona Mariquinha cuidava de lavar os utensílios sujos deixados pelo marido. Moradores de uma área periférica, eles dispõe de uma casa bem simples na qual a sala de estar permite uma vista constante para a cozinha, principalmente quando se está no sofá vendo televisão, em que é possível fitar a pia da cozinha, e quem a utiliza por tabela. Começa o globo repórter, com aquela infernal musiquinha de abertura. Um efeito fantasmagórico eletrônico que causa medo e desconforto auditivo. Embora não saiba explicar com essas palavras lógicas, Seu Joaquim entende muito bem a sensação aterrorizante daquele som. Começa a reportagem. Seu Joaquim, meio sonolento, esforça-se para prestar atenção ao que se desenrolava. A matéria em pauta era sobre alimentação, e, durante a retórica recheada de clichês proferidos pelo apresentador, eis que surge um que inquieta o chefe de família. “O homem é aquilo que come!” Acometido pelo ar engasgado na garganta ele sente o gosto do torresmo que acabara de comer, com dificuldade engole, e logo em seguida abafa um arroto soltando, em seguida, uma lufada de ar para fora, o que fez com que se sentisse mais aliviado. Só que, as palavras do jornalista impregnaram-se na sua mente. “O homem é aquilo que come!” Consternado, vira-se a olhar para a cozinha. Com os olhos arregalados fita Dona Mariquinha, e começa a analisar a esposa com quem estivera casado há mais de trinta anos. Sua barriga enorme tornava o manuseio da louça mais difícil, pois a mantinha afastada da pia. Repara também em seus braços, como eles eram gordos! E o balanço daquele excesso de pele ao ensaboar a enorme caçarola suja de ensopado. As varizes nas pernas davam uma tonalidade diferenciada a sua cor pálida e cheia de manchas senis. Um cabelo totalmente desalinhado e branco com mechas já amareladas. De tudo aquilo, o que mais lhe chamou atenção eram os trajes. Uma saia suja e desbotada, impossível definir as cores do tecido, a camisa; um uniforme escolar há muito gasto pelo tempo. “Nossa” (pensou)! Foram-se os tempos que as crianças ainda estudavam. Um até já se casara. Mais uma vez medita: “O homem é aquilo que come!” Volta-se para a televisão, já num estado de transe sonífero, acomoda-se mais uma vez no sofá encardido. Com seus olhos quase se fechando, dá mais uma breve olhada para dona Mariquinha, alheia à observação do marido. Finalmente, tomba a cabeça para o lado e dorme.