segunda-feira, 28 de abril de 2008

Segunda parte: De um papo na Lama; prelúdio para noite na baderna

Eram três extemporâneos convivas. Paulo, um apóstolo de Cristo, Filipe II, o macedônico governante e George Gordon, inspirador de muitos ultra-românticos.Sentados à mesa, versavam sobre temas variados. Filipe, sempre em sua diária transumância de Tebas do Jucú até os Gregos Campos Elíseos Arquitetônicos. Já familiarizado com os novos instrumentos bélicos, e dotado de um exímio espírito tático para erigir templos e fortificações, revela estar preparado para se graduar um governante do próprio destino. Ainda assim, pronuncia seu lamento pelas guerras fratricidas entre os períodos-estados do curso.Imbuído de um espírito peregrinatório não muito distinto, Paulo aos ouvintes relata suas atividades missionárias. De Cobilândialêm a Damasco, de Antioquia da Penha a Cesária. Dentre muitas paragens uma lhe trouxera boa história a fim de contar aos convivas. Deserto! Uma jovem andarilha, desgarrada de seus entes, achava-se em desespero. Uma alma a beira de ser possessa pelos demônios. Atracou-se a segurar a túnica do apóstolo. Este fiel temente de Cristo, vendo o lastimável estado de lascívia e necessidades espirituais da perdida, sabiamente decidiu introduzir-lhe a palavra de Deus. Acometida em convulsões e suores pagãos, aos poucos se tornava suscetível pelos dizeres apostólicos. Ambos, doutrinador e recém convertida, adentram num estado harmônico de prostração ante o divino. Já não havia mais distinção entre os corpos, receptáculos do facho de luz glorificador. Aproxima-se o místico instante da epifania. Contudo, a harmoniosa relação interrompera-se, e o clímax do regozijo divinal, indultor de todos os pecados mundanos, manifesto fizera-se apenas na alma do experiente apóstolo. Restou a pobre, vaga e angustiante sensação do êxtase não alcançado. Filipe II franziu a testa; seu gestual questionador e ainda não satisfeito com a parábola induziu George, que os ouvia atento até então, a manifestar sua glosa elucidativa. Ao invés de sonorizar um soneto imbuído em spleen, este se pautou pela inovação. O polêmico e inusitado discurso inicia-se carregado de saber oriental. Dispensado de pudicos pudores acrescenta o Tao ao colóquio. “Caro macedônico! A experiência vivenciada por nosso companheiro de libações molotóvicas e sua pequena aprendiz, remete a algo com que travei contato em minhas pretéritas andanças pelo mundo. De um ancião chinês absorvi rudimentos de um excêntrico e complexo sistema de saberes filosóficos. Axiomas de difícil entendimento ao primeiro vislumbre, pouco pude absorver de tais intrincados ensinamentos, o mínimo digerido e assimilado compartilho agora com vocês. Evidencia-se provável possibilidade, se bem o compreendi, (George apanha um cálice) conspícuo pregador cristão, que o místico drama, por vocês vivenciado, sirva de ilustração comprobatória para os antigos conhecimentos desenvolvidos por Lao-Tsé. Conceitos tais quais: o uno e o verso, a transcendência incognoscível, a síntese das antíteses, o agir pelo não agir, os paradoxos da verdade e a passividade dinâmica. Tu, confrade, em oportuna atividade meditativa, saboreou um extremo de tal experiência; o gozo de prostrar-te ante manifestação glorificadora de seu Deus. Conseguiste, mantendo esse estado de transe, alcançar o mais elevado estado búdico. Já sua companheira de meditações cristãs experimentou um resultado antitético ao teu, pois ironia da vontade divinal, os exercícios extra e introspectivos da jovem, malograram em uma conclusão não almejada por ela. Certamente, queria juntar-se a ti nesta singular situação epifânica das coisas celestiais. Ora pois, tu no zênite, ela no nadir.” O lorde do ultra-romantismo enfim arrematou: “ Ela ficou, com toda certeza, frustrada por não tê-lo acompanhado. Uma frustração, a ausência de um espiritual manifesto, o não realizar. Mas isso, tal frustrante anticlímax não representa uma derrota, e sim um alimento, um fator de incentivo para que a jovem busque, num futuro próximo, o tão desejado estado de comunhão com Deus.” Com o cálice nas mãos, pondo o indicador no vazio do recipiente, intentando reforçar seu eloqüente discurso, George declamou versos do Tao Te Ching: Assim...Trinta raios convergentes no centroTem uma roda,Mas somente os vácuos entre os raiosÉ que facultam seu movimento.O oleiro faz um vaso, manipulando a argila,Mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade.Paredes são massas com portas e janelas,Mas somente o vácuo entre as massasLhes dá utilidade –Assim são as coisas físicas,Que parecem ser o principal,Mas o seu valor está no metafísico.Findas explanações, passaram a dialogar a respeito de uma película que estava por se rodar no Cine Metrópoles.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

No principio era a carne, depois o verbo...

-Você é muito Simental, vai me deixar pastando?
-Simental é a mãe, descendo de holandesas, fique sabendo.
-Já levei vaquinhas bem nelores que você pro brejo!
-Ta vendo, é por isso que te acho um charolez.
-Bovina leiteira, suas maminhas já tão bem muxibentas!
-E você, tem coragem de chamar de picanha essa ponta de agulha!
-Mimosa Maturada!
-Chico Chifrudo!
Contrasensocomum... muuuuuuu! Parece que hoje o curral vai ficar pequeno!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

UM TANTO ESTRANHAMENTE FAMILIAR

Pós-Moderno (PM), após uma noite repleta de sonhos perturbadores, acordou. Dando-se por si, não, não se transformara num gigantesco inseto. Sentia-se pior que isso. Possivelmente, não se diferenciava da mais insignificante espécie invertebrada que já tivera o desprazer de caminhar, ou melhor, rastejar, pela face da terra. Terra essa, cuja cara há muito já lhe era desconhecida. Lembrou-se de que tinha uma hora marcada com o Dr. (O)Divam (DD); e aquela lembrança constituiu-se num breve alento ao seu dia, que não começara nada bem. No consultório, ao mesmo tempo em que vomitaria toda sorte de emoções impregnadas em suas entranhas, reviveria o efeito colateral que elas causavam à sua consciência e certo senso de ridículo, horas depois da consulta.

Transcorreu seu dia. No trabalho, a tudo se procedera por modernos computadores, alta tecnologia, velocidade alucinante nas comunicações e na realização dos negócios, que... Enfim, em dados momentos, era preciso escapar um pouco daquilo. As mídias alternativas, seu hiper-realismo, e a espetacularizaçao das notícias doutrinavam ainda mais seu cérebro-hardware numa freqüência que o tornava extremamente ávido pelo consumo de modismos, programando sua exacerbada individualidade e reduzindo-o a fragmentos de algo que não se saberia definir precisamente. Não tardaria, um vazio se instalaria em seu ser.

Lembra-se dos filhos, que foram morar com a ex-esposa; da infância no sítio da família; e, até mesmo, dos cultos aos domingos, contudo, tão logo retorna ao estado de autômato de antes, apático, descrente, reinicia a assimilação de uma hecatombe de informações inúteis e, e, e... Quando se dá por si novamente, já está na sala do Dr. Divam...

PM – Dr, é sempre assim que acontece: sei que sinto algo, mas não sei que algo e esse!
DD – ...

PM – A coisa é complicada... Bem... Sabe, quando ando pelas ruas, parece que algo não está completo, surge uma sensação de vazio, não sei descrevê-la com palavras.
DD – Umhum
PM – Parece que eu não sou eu mesmo, ou, às vezes, eu me encontro com um diferente tipo do meu eu, dependendo do lugar em que esteja... Não entendo!
DD – ...
PM – Um medo, mas que não é um medo...
DD – Angústia?
PM – Isso!
DD – ...
PM – Sabe, outro dia passei em frente a um desses novos Centros Comerciais; não sei, havia um monte de formas, que não consegui entender bem, que a princípio me fizeram sentir-me mal. Em seguida, parecia que aquilo, espelhos, tijolos, luzes, cores, queria me dizer algo numa língua que eu desconhecia, mas que não me era tão estranha assim.
DD – ...
PM – Mas essa sensação, ah, esse sentimento, me acontece em vários lugares. Lá em casa, então, olho para a sala e não vejo mais as crianças, sinto uma solidão tremenda, mas, ao mesmo, certa tristeza, como se houvesse ali uma presença que conheço há muito tempo.
DD – Sei
PM – É verdade, o cheiro do carpete bege, já bem velho; o desbotado retangular da parede, onde havia um quadro; a luz do poste acesa à noite, que entra pelo vidro da varanda, iluminando apenas a metade da sala. Às vezes, me sento no sofá e tenho a impressão de que algo ruim vai acontecer...
DD – ...
PM – Ah, sim, uma vez ou outra, quando volto para casa e tenho de percorrer algumas ruelas desertas do centro da cidade, passo por certos becos lúgubres. Em muitos, vejo até uma nevoa branco-acinzentada, o vulto sombreado de um gato que se alonga pelo muro de tijolos e ouço aquele som inconfundível da sirene dos navios ao longe, lá no porto, misturado com o tilintar de garrafas que rolam, ritmadas ao comando do vento... Ah, o vento e seu som sibilante como um uivo de fantasma causa arrepios de início, mas logo se acostuma com seu soprar, sinto até certo conforto... Difícil dizer.
DD – Certo, senhor PM, vejo que aos poucos já consegue estabelecer com palavras “lógicas” as sensações que o senhor experimenta, e que, há pouco, mal conseguia reconhecer. Por favor, prossiga...
PM – Bem, a sensação, o sentimento, não sei como se fala, consigo explicar, mas não sei dizer o que é exatamente... Como se uma palavra pudesse... Como o senhor disse mesmo?
DD – Angústia!
PM – Como se eu precisasse saber qual o nome desse negócio que me causa essa angústia.
DD – Esses lugares, essas ocorrências, essas formas, sons, cores etc., talvez lhe soem estranhamente familiares!
PM – É isso! Isso mesmo! Parece até que meu peito ficou mais leve de repente.
DD – Hum.
PM – Nossa, Dr., o senhor disse exatamente o que eu sinto. Eu reconheço essas coisas, elas me parecem familiares, às vezes bem familiares, mas de um jeito esquisito, estranho. Meio assombrosas.

Pós-Moderno começava a gostar daquilo. Ele prosseguia em seu discurso, quando Dr. Divam, num fôlego repentino, o interrompeu.

DD – Bem, é obvio que nenhum desses casos é uma propriedade do espaço em si, nem pode ser provocado por uma conformação espacial peculiar. Em sua dimensão estética, o estranhamente familiar é uma representação de um estado mental de projeção que justamente elimina as fronteiras do real e do irreal, a fim de provocar uma ambigüidade perturbadora, um deslizamento entre a vigília e o sonho.

Pós-Moderno, numa fúria contida, olhou para seu médico com desdém e pensou consigo: por que esse “psiCanalhista” tinha de interrompê-lo logo mo exato momento em que descobrira o nome do negócio e já começava a se soltar! E PM preferia sua nomenclatura, “fotogramas de onirismos conceituais (ou cochilos, mesmo)” ao tal deslizamento ambíguo entre sonho e vigília... Mas, “péra” lá, este consultório, a luz violeta irradiada por este abajur antigo, o tapete do centro, com seu vermelho vivo, e a estante de mogno, repleta de livros de capa dura, com letras douradas, sem contar o Dr., essas roupas, essa desenvoltura, seu olhar semi-serrado inquiridor... Todo o ambiente, essa atmosfera de penumbra que causava receio e conforto, o que seria essa saudade inexplicável que sentia agora? Uma nostalgia que não lhe pertencia? Tudo isso lhe soa um tanto quanto estranhamente familiar.

domingo, 27 de maio de 2007

Tio Modesto

Atendendo a pedidos, a postagem está em manutenção!!!

sábado, 7 de abril de 2007

No boteco copo sujo

Estudantes de engenharia...
-Olha lá, olha lá!
Todos se voltam para ver a abaulada superfície do banal!
-Que material! Exclama um.
-Meu Deus! Qual será o índice de esbeltez?
-Nossa, como é bem pré-moldada!
-Que fck!
(Trouxas, mal sabem que há um cabo de protenção naquela laje!)

...

Há algumas mesas dali, estudantes (mulheres) de arquitetura...
-Olha só, meninas, que bando de homem atirado.
-Aposto que aquele mais folgado acha que o dele é uma coluna dórica!
-E o metido a intelectual, deve se considerar jônico!
-Bem, pelos trajes do outro se notam ares de corintiano. Eca!
Todas se riem!
-Gente, e o afetadinho, sei não, compósito com força!
-Ah é, pior o grandão, deve se achar Trajano em pessoa!
-Cá pra nós! Não passam todos de brejeiros toscanos!
-Ka ka ka ka ka ka ka ka ka ka ka ka ka...

sexta-feira, 9 de março de 2007

Globo Repórter

Uma típica noite de sexta feira, Seu Joaquim, após longo e exaustivo dia de trabalho, termina sua refeição. Enquanto isso, Dona Mariquinha cuidava de lavar os utensílios sujos deixados pelo marido. Moradores de uma área periférica, eles dispõe de uma casa bem simples na qual a sala de estar permite uma vista constante para a cozinha, principalmente quando se está no sofá vendo televisão, em que é possível fitar a pia da cozinha, e quem a utiliza por tabela. Começa o globo repórter, com aquela infernal musiquinha de abertura. Um efeito fantasmagórico eletrônico que causa medo e desconforto auditivo. Embora não saiba explicar com essas palavras lógicas, Seu Joaquim entende muito bem a sensação aterrorizante daquele som. Começa a reportagem. Seu Joaquim, meio sonolento, esforça-se para prestar atenção ao que se desenrolava. A matéria em pauta era sobre alimentação, e, durante a retórica recheada de clichês proferidos pelo apresentador, eis que surge um que inquieta o chefe de família. “O homem é aquilo que come!” Acometido pelo ar engasgado na garganta ele sente o gosto do torresmo que acabara de comer, com dificuldade engole, e logo em seguida abafa um arroto soltando, em seguida, uma lufada de ar para fora, o que fez com que se sentisse mais aliviado. Só que, as palavras do jornalista impregnaram-se na sua mente. “O homem é aquilo que come!” Consternado, vira-se a olhar para a cozinha. Com os olhos arregalados fita Dona Mariquinha, e começa a analisar a esposa com quem estivera casado há mais de trinta anos. Sua barriga enorme tornava o manuseio da louça mais difícil, pois a mantinha afastada da pia. Repara também em seus braços, como eles eram gordos! E o balanço daquele excesso de pele ao ensaboar a enorme caçarola suja de ensopado. As varizes nas pernas davam uma tonalidade diferenciada a sua cor pálida e cheia de manchas senis. Um cabelo totalmente desalinhado e branco com mechas já amareladas. De tudo aquilo, o que mais lhe chamou atenção eram os trajes. Uma saia suja e desbotada, impossível definir as cores do tecido, a camisa; um uniforme escolar há muito gasto pelo tempo. “Nossa” (pensou)! Foram-se os tempos que as crianças ainda estudavam. Um até já se casara. Mais uma vez medita: “O homem é aquilo que come!” Volta-se para a televisão, já num estado de transe sonífero, acomoda-se mais uma vez no sofá encardido. Com seus olhos quase se fechando, dá mais uma breve olhada para dona Mariquinha, alheia à observação do marido. Finalmente, tomba a cabeça para o lado e dorme.