Pós-Moderno (PM), após uma noite repleta de sonhos perturbadores, acordou. Dando-se por si, não, não se transformara num gigantesco inseto. Sentia-se pior que isso. Possivelmente, não se diferenciava da mais insignificante espécie invertebrada que já tivera o desprazer de caminhar, ou melhor, rastejar, pela face da terra. Terra essa, cuja cara há muito já lhe era desconhecida. Lembrou-se de que tinha uma hora marcada com o Dr. (O)Divam (DD); e aquela lembrança constituiu-se num breve alento ao seu dia, que não começara nada bem. No consultório, ao mesmo tempo em que vomitaria toda sorte de emoções impregnadas em suas entranhas, reviveria o efeito colateral que elas causavam à sua consciência e certo senso de ridículo, horas depois da consulta.
Transcorreu seu dia. No trabalho, a tudo se procedera por modernos computadores, alta tecnologia, velocidade alucinante nas comunicações e na realização dos negócios, que... Enfim, em dados momentos, era preciso escapar um pouco daquilo. As mídias alternativas, seu hiper-realismo, e a espetacularizaçao das notícias doutrinavam ainda mais seu cérebro-hardware numa freqüência que o tornava extremamente ávido pelo consumo de modismos, programando sua exacerbada individualidade e reduzindo-o a fragmentos de algo que não se saberia definir precisamente. Não tardaria, um vazio se instalaria em seu ser.
Lembra-se dos filhos, que foram morar com a ex-esposa; da infância no sítio da família; e, até mesmo, dos cultos aos domingos, contudo, tão logo retorna ao estado de autômato de antes, apático, descrente, reinicia a assimilação de uma hecatombe de informações inúteis e, e, e... Quando se dá por si novamente, já está na sala do Dr. Divam...
PM – Dr, é sempre assim que acontece: sei que sinto algo, mas não sei que algo e esse!
DD – ...
PM – A coisa é complicada... Bem... Sabe, quando ando pelas ruas, parece que algo não está completo, surge uma sensação de vazio, não sei descrevê-la com palavras.
DD – Umhum
PM – Parece que eu não sou eu mesmo, ou, às vezes, eu me encontro com um diferente tipo do meu eu, dependendo do lugar em que esteja... Não entendo!
DD – ...
PM – Um medo, mas que não é um medo...
DD – Angústia?
PM – Isso!
DD – ...
PM – Sabe, outro dia passei em frente a um desses novos Centros Comerciais; não sei, havia um monte de formas, que não consegui entender bem, que a princípio me fizeram sentir-me mal. Em seguida, parecia que aquilo, espelhos, tijolos, luzes, cores, queria me dizer algo numa língua que eu desconhecia, mas que não me era tão estranha assim.
DD – ...
PM – Mas essa sensação, ah, esse sentimento, me acontece em vários lugares. Lá em casa, então, olho para a sala e não vejo mais as crianças, sinto uma solidão tremenda, mas, ao mesmo, certa tristeza, como se houvesse ali uma presença que conheço há muito tempo.
DD – Sei
PM – É verdade, o cheiro do carpete bege, já bem velho; o desbotado retangular da parede, onde havia um quadro; a luz do poste acesa à noite, que entra pelo vidro da varanda, iluminando apenas a metade da sala. Às vezes, me sento no sofá e tenho a impressão de que algo ruim vai acontecer...
DD – ...
PM – Ah, sim, uma vez ou outra, quando volto para casa e tenho de percorrer algumas ruelas desertas do centro da cidade, passo por certos becos lúgubres. Em muitos, vejo até uma nevoa branco-acinzentada, o vulto sombreado de um gato que se alonga pelo muro de tijolos e ouço aquele som inconfundível da sirene dos navios ao longe, lá no porto, misturado com o tilintar de garrafas que rolam, ritmadas ao comando do vento... Ah, o vento e seu som sibilante como um uivo de fantasma causa arrepios de início, mas logo se acostuma com seu soprar, sinto até certo conforto... Difícil dizer.
DD – Certo, senhor PM, vejo que aos poucos já consegue estabelecer com palavras “lógicas” as sensações que o senhor experimenta, e que, há pouco, mal conseguia reconhecer. Por favor, prossiga...
PM – Bem, a sensação, o sentimento, não sei como se fala, consigo explicar, mas não sei dizer o que é exatamente... Como se uma palavra pudesse... Como o senhor disse mesmo?
DD – Angústia!
PM – Como se eu precisasse saber qual o nome desse negócio que me causa essa angústia.
DD – Esses lugares, essas ocorrências, essas formas, sons, cores etc., talvez lhe soem estranhamente familiares!
PM – É isso! Isso mesmo! Parece até que meu peito ficou mais leve de repente.
DD – Hum.
PM – Nossa, Dr., o senhor disse exatamente o que eu sinto. Eu reconheço essas coisas, elas me parecem familiares, às vezes bem familiares, mas de um jeito esquisito, estranho. Meio assombrosas.
Pós-Moderno começava a gostar daquilo. Ele prosseguia em seu discurso, quando Dr. Divam, num fôlego repentino, o interrompeu.
DD – Bem, é obvio que nenhum desses casos é uma propriedade do espaço em si, nem pode ser provocado por uma conformação espacial peculiar. Em sua dimensão estética, o estranhamente familiar é uma representação de um estado mental de projeção que justamente elimina as fronteiras do real e do irreal, a fim de provocar uma ambigüidade perturbadora, um deslizamento entre a vigília e o sonho.
Pós-Moderno, numa fúria contida, olhou para seu médico com desdém e pensou consigo: por que esse “psiCanalhista” tinha de interrompê-lo logo mo exato momento em que descobrira o nome do negócio e já começava a se soltar! E PM preferia sua nomenclatura, “fotogramas de onirismos conceituais (ou cochilos, mesmo)” ao tal deslizamento ambíguo entre sonho e vigília... Mas, “péra” lá, este consultório, a luz violeta irradiada por este abajur antigo, o tapete do centro, com seu vermelho vivo, e a estante de mogno, repleta de livros de capa dura, com letras douradas, sem contar o Dr., essas roupas, essa desenvoltura, seu olhar semi-serrado inquiridor... Todo o ambiente, essa atmosfera de penumbra que causava receio e conforto, o que seria essa saudade inexplicável que sentia agora? Uma nostalgia que não lhe pertencia? Tudo isso lhe soa um tanto quanto estranhamente familiar.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
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Um comentário:
Elegância, maturidade, estilística, vigor juvenil, rigor no trato com as sutilezas do dialeto culto da língua portuguesa, execelência na sintaxe de colocação, pontuação e flexão modoverbal, esmero com os cinco elementos da Narrativa, domínio do discurso direto, indireto e indireto livre, ensaístico, enfim, ecce homo.
Além disso, diálogo inter e transtextual com Sigmund Freud, Eta Hoffmann, Franz Kafka, Jair Ferreira dos Santos e outros.
A pergunta é: por que ler Jorge Martins? Caberiam 10 páginas, para se enunciarem as respostas, mas resumo-as aqui nisto, parafraseando Italo Calvino: porque é melhor lê-lo do que não lê-lo.
Leiam-no. Eis o homem, e ainda por cima é escritor. Alguém ainda duvida?
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